
A inteligência artificial aplicada aos processos de gestão jurídica no setor imobiliário
Resumo
A inteligência artificial tem transformado a atuação jurídica no setor imobiliário. Ferramentas baseadas em IA permitem automatizar a coleta e organização de informações processuais, identificar riscos contratuais com mais precisão e antecipar cenários por meio de análises preditivas. Com isso, escritórios e departamentos jurídicos passam a operar como áreas de inteligência do negócio – agregando valor direto à governança, à redução de passivos e à segurança jurídica das operações. A aplicação combinada de extração de dados, jurimetria e BI possibilita decisões mais ágeis na gestão de litígios e mitigação de riscos.
Introdução
A inteligência artificial (IA) tem desempenhado um papel importante na transformação do cenário empresarial, mudando a forma como as organizações funcionam, competem e oferecem valor aos consumidores. Com a utilização de algoritmos de aprendizado de máquina e sistemas de processamento de linguagem, a IA já se tornou essencial em diversos setores, permitindo uma maior acessibilidade a dados, a automatização de tarefas, a otimização da tomada de decisões e a customização da experiência do usuário.
No âmbito jurídico, em especial no setor imobiliário, a inteligência artificial expandiu-se significativamente, sendo aplicada para lidar com grandes volumes de dados legais, melhorar a eficiência na prestação de serviços e aprimorar a precisão nas decisões. Este estudo busca analisar as aplicações práticas da IA, como a automação na extração de dados e o uso de análises preditivas, e como essas ferramentas estão promovendo uma mudança na forma de atuação jurídica.
1. A obtenção de dados e a sua aplicação em análises jurimétricas
A obtenção de dados cadastrais e o uso de análises jurimétricas representam avanços concretos da transformação digital no setor jurídico. Por meio da aplicação da IA, a coleta e a organização de informações trazem subsídios para o aperfeiçoamento da capacidade analítica dos profissionais do direito, permitindo uma atuação mais estratégica e eficiente. Nesse sentido, por meio da jurimetria, ampliam-se exponencialmente as possibilidades de atuação estratégica de escritórios de advocacia e de departamentos jurídicos internos de empresas.
A jurimetria é o uso de métodos quantitativos e estatísticos para analisar dados jurídicos, com o objetivo de produzir conhecimento empírico sobre o funcionamento do Direito. Para isso, é fundamental passar por um processo estruturado que começa com a obtenção de dados e termina com a análise jurimétrica propriamente dita.
A convergência entre o uso da inteligência artificial e a jurimetria torna possível estabelecer uma análise eficiente e estratégica dos dados. Tecnologias como extração automatizada de informações, reconhecimento de padrões e análise preditiva contribuem para organizar grandes volumes de dados cadastrais e processuais. Com isso, é possível identificar tendências, prever resultados e gerar relatórios que auxiliam os advogados na tomada de decisões.1
Ou seja, uma vez obtidos os dados com tecnologias de extração de informações, é possível estabelecer processos de análise jurimétrica, por meio da IA, aplicados a estes dados. A jurimetria consolida-se como uma ferramenta essencial para a análise empírica do Direito, permitindo uma compreensão mais objetiva dos fenômenos jurídicos2. Vejamos algumas ações que podem ser realizadas em escritórios e departamentos jurídicos com este tipo de tecnologia.
| Clusterização de processos | Técnica de aprendizado não supervisionado, agrupando processos com base em similaridades, como natureza da causa, pedidos e desfechos. A técnica de clusterização auxilia na segmentação de processos, permitindo análises mais específicas e direcionadas.3 |
| Predição de resultados com bases históricas bem-organizadas | É possível treinar modelos preditivos para estimar probabilidade de êxito, tempo médio de tramitação ou valores de condenação. A predição de resultados judiciais por meio de IA contribui para a tomada de decisões estratégicas por advogados.4 |
| A identificação de padrões de comportamento judicial por meio de IA | Permite mapear tendências de julgamento por magistrados ou Tribunais. O uso de métodos de atenção na análise de resultados judiciais contribui significativamente para a previsibilidade dos julgamentos, permitindo uma maior compreensão dos padrões decisórios e sua coerência ao longo do tempo.5 |
| Enriquecimento de dados analíticos além dos dados processuais | A IA permite o enriquecimento dos dados com informações externas como decisões semelhantes, dispositivos legais citados ou teses repetitivas. A agregação de informações complementares aos dados processuais enriquece as análises e favorece a tomada de decisões mais informadas.6 |
| Geração de insights e relatórios automatizados com base em IA | A geração de relatórios preditivos permite que operadores do Direito antecipem tendências e se preparem melhor para a gestão de seus casos.7 |
Vale ressaltar que a utilização de inteligência artificial (IA) em dados jurídicos reais deve observar estritamente os dispositivos da Lei nº 13.709/2018, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), especialmente no que se refere ao tratamento de dados pessoais e dados sensíveis. Ou seja, embora a Lei tenha sido pensada com o objetivo de dispor sobre a proteção aos dados pessoais, sobretudo em meios digitais, a sua aplicação termina por atingir diretamente o uso da inteligência artificial.
Segundo a LGPD, o tratamento de dados pessoais (quaisquer informações que identifiquem ou tornem identificável uma pessoa natural) e de dados sensíveis (dados pessoais de um tipo específico, que revelam aspectos íntimos da vida de uma pessoa natural e podem levar à discriminação), somente poderão ser utilizados nas hipóteses legais, previstas nos arts. 7º e 11, respectivamente, da LGPD. Além disso, de acordo com o art. 46 da Lei, os “agentes de tratamento”, isto é, os controladores ou os seus operadores, devem garantir a adoção de medidas técnicas e administrativas aptas a proteger os dados pessoais de acessos não autorizados e de situações acidentais ou ilícitas de destruição, perda, alteração, comunicação ou difusão. Em ambientes abertos na internet, essas precauções tornam-se ainda mais relevantes, exigindo, por exemplo, a anonimização dos dados sempre que possível; o uso de criptografia; o controle rígido de acessos; e o cumprimento dos princípios da finalidade, necessidade, adequação e segurança.
2. A inteligência artificial aplicada à gestão jurídica no setor imobiliário
O uso da inteligência artificial como ferramenta eficiente para a extração e a análise de dados jurídicos cria as bases para uma transformação na dinâmica entre escritórios de advocacia e departamentos jurídicos internos. A capacidade de automatizar a obtenção de dados cadastrais, aplicar técnicas de clusterização, predição de resultados e gerar relatórios analíticos robustos não apenas aprimora a qualidade das análises jurimétricas, mas também viabiliza uma atuação jurídica mais estratégica e colaborativa. É justamente a partir dessa infraestrutura tecnológica que se aprimora a relação tradicional entre escritórios e empresas, em especial do setor imobiliário, permitindo análises mais robustas e decisões baseadas em dados.

Esta mudança não apenas tem o potencial de otimizar as análises jurídicas, mas também gera valor estratégico para o negócio como um todo. Isto porque a análise preditiva permite alcançar novos insights jurídicos. Por meio das tecnologias baseadas em aprendizado de máquina e processamento de linguagem natural, é possível extrair padrões, tendências e probabilidades. Escritórios e departamentos jurídicos que utilizam ferramentas de IA conseguem prever com maior precisão a probabilidade de êxito em ações judiciais, identificar comportamentos decisórios recorrentes de determinados Tribunais e até apontar cláusulas contratuais com maior risco de litígio. Esse tipo de tecnologia indica com razoável precisão quais as chances de êxito em um determinado litígio, bem como orienta sobre custos, duração e riscos envolvidos.8
Ademais, a utilização das ferramentas de IA permite lançar um novo olhar sobre a estruturação da base jurídica-empresarial. Escritórios que lidam com milhares de contratos, ações de rescisão contratual, de cobrança, de despejo, notificações extrajudiciais etc. encontram dificuldades, muitas vezes, em manter um repositório confiável, atualizado e acessível. Com o uso de IA, é possível aplicar classificadores automáticos, agrupar documentos por tipologia, criar taxonomias customizadas e construir repositórios jurídicos inteligentes. A organização dos dados jurídicos é condição essencial para que se possa extrair valor com métodos computacionais: sem estrutura, não há inteligência.9
Além do aperfeiçoamento da análise preditiva e da organização dos dados jurídicos, também é transformada a forma como os dados jurídicos são apresentados. Escritórios modernos passaram a integrar os resultados processuais, financeiros e operacionais a painéis interativos desenvolvidos com ferramentas de Business Intelligence (BI), como Power BI ou Tableau. Isso permite que os departamentos jurídicos acompanhem em tempo real indicadores como volume de ações por Estado, por índice de êxito por matéria, por valores provisionados versus valores pagos e por tempo médio de tramitação dos processos.
A inteligência artificial aplicada à gestão jurídica representa uma evolução diante da complexidade e pressão por eficiência características do setor imobiliário. Ao incorporar tecnologias analíticas, o jurídico deixa de ser um centro de custo e se reposiciona como uma unidade estratégica e preventiva. Nesse sentido, a transformação digital do Direito reconfigura os fluxos informacionais e valoriza a gestão do conhecimento como prática institucional.10
Considerações finais
A aplicação da inteligência artificial no âmbito jurídico representa uma das mais significativas transformações da prática do Direito nas últimas décadas. Analisamos como a IA vem remodelando os processos de gestão e avaliação de risco, especialmente a partir da automação da extração de dados, da análise preditiva e da integração entre jurimetria e bases cadastrais.
São inúmeros os seus benefícios, como o aumento da eficiência operacional, a melhora na precisão das decisões e a capacidade de antecipar tendências. Escritórios de advocacia e departamentos jurídicos encontram-se hoje diante de uma oportunidade única para adotar uma postura mais estratégica, proativa e baseada em dados. Essa mudança já é visível no aprimoramento da relação entre os escritórios e seus clientes, sobretudo em setores de alta complexidade como o imobiliário. A IA deixa de ser apenas uma ferramenta de automação e passa a ser parte integrante da inteligência de negócios, permitindo que o jurídico assuma um papel consultivo e preventivo, agregando valor direto às decisões corporativas.
O futuro da advocacia – em especial no setor imobiliário – estará cada vez mais ligado à capacidade de interpretar, organizar e utilizar dados de maneira ética, segura e eficiente. A inteligência artificial, nesse sentido, pode ser vista como uma aliada para uma atuação mais transparente, rápida e inteligente. Os profissionais do Direito do futuro não serão apenas especialistas em normas, mas também em dados, processos e tecnologias que moldam a prática jurídica moderna11. Esse futuro, para o setor imobiliário, já começou.
- Sobre o tema, cf.: Hartmann Peixoto, Fabiano. “Direito e Inteligência Artificial: referenciais básicos com comentários à Resolução CNJ 332/2020”. Coleção Inteligência Artificial e Jurisdição. Vol. 2. Brasília: UnB, 2020; Mangaravite, Vitor; Carvalho; et. al., “DedupeGov: Uma Plataforma para Integração de Grandes Volumes de Dados de Pessoas Físicas e Jurídicas em Âmbito Governamental”. Simpósio Brasileiro de Banco de Dados (SBBD). Porto Alegre: Sociedade Brasileira de Computação, 2022; Bai, Eric A.; Binette, Olivier; Reiter, Jerome P. “Optimal F-score Clustering for Bipartite Record Linkage”. ArXiv, 2023, p. 2. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2311.13923. ↩︎
- Zabala, Filipe Jaeger; Silveira, Fabiano Feijó. “Jurimetria: estatística aplicada ao direito”. Revista Direito e Liberdade, vol. 16, nº 1, 2014. Disponível em: https://ww2.esmarn.tjrn.jus.br/revistas/index.php/revista_direito_e_liberdade/issue/view/33, p. 100. ↩︎
- Ibidem, p. 91. ↩︎
- Hartmann Peixoto, Fabiano. “Direito e Inteligência Artificial: referenciais básicos com comentários à Resolução CNJ 332/2020”, op. cit., p. 23. ↩︎
- Ferreira Bertalan, Vithor Gomes; Ruiz, Evandro Eduardo Seron. “Using attention methods to predict judicial outcomes”. Arxiv, 2022. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2207.08823, p. 18. ↩︎
- Hartmann Peixoto, Fabiano. “Direito e Inteligência Artificial: referenciais básicos com comentários à Resolução CNJ 332/2020”, op. cit., p. 62. ↩︎
- Okamoto, Ricardo Feliz; Trecenti, Julio. Metodologia de pesquisa jurimétrica. São Paulo: Associação Brasileira de Jurimetria, 2022. Disponível em: https://livro.
abj.org.br/, p. 6. ↩︎ - Andrade, Mariana Dionísio de; Rosa, Beatriz de Castro; Pinto, Eduardo Régis Girão de Castro. “Legal tech: analytics, inteligência artificial e as novas perspectivas para a prática da advocacia privada”. Revista Direito GV, vol. 16, nº 1, 2020, p. 6. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/2317-6172201951 ↩︎
- Almada, Marco; Zanatta, Rafael A. F. “Inteligência artificial, direito e pesquisa jurídica”. Revista USP, nº 141, 2024, p. 61. ↩︎
- Ibidem, p. 58. ↩︎
- Susskind, Richard. Tomorrow’s Lawyers: An Introduction to Your Future. 2ª ed. Oxford: Oxford University Press, 2019, p. 45. ↩︎








